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Câmaras e objetivas para retrato: erros comuns e como evitá-los

Cinco enganos frequentes na escolha de câmara e objetiva para retrato em estúdio, vistos por quem já os cometeu, e o que fazer em vez disso.

Marta Figueiredo

6 minutos de leitura

Câmaras e objetivas para retrato: erros comuns e como evitá-los

Começar pelo corpo da câmara em vez da objetiva

Quando alguém me pergunta que equipamento deve comprar para retrato, a conversa começa quase sempre pelo corpo da câmara: quantos megapíxeis, que sensor, que sistema de focagem. É compreensível, porque é o que as comparações da internet destacam. Mas, em estúdio, a imagem que o retratado vê no final depende muito mais do vidro que está à frente do sensor do que do número que vem na ficha técnica.

Uma objetiva boa num corpo modesto dá mais retratos utilizáveis do que o contrário. O desenho do desfocado, a nitidez nos olhos, a forma como a pele é desenhada nas transições, tudo isso nasce na ótica. O corpo pode ser trocado daqui a cinco anos; uma objetiva bem escolhida acompanha-o durante muito mais tempo.

Por isso, quando faço uma análise ou uma comparação, começo sempre pela pergunta inversa: que objetiva faz o que preciso, e só depois que corpo a sabe usar bem.

Ignorar a distância de trabalho do estúdio

Um erro muito comum é escolher a distância focal a pensar no catálogo e não no espaço real onde se trabalha. Um estúdio pequeno, daqueles em que se recua dois ou três passos até bater na parede, obriga a perguntar se uma focal longa cabe ali. Se não couber, o retrato de meio corpo ou de corpo inteiro fica impossível sem recorrer a uma focal que não se queria.

Já me aconteceu montar uma objetiva longa, ótima para o rosto, e perceber que não conseguia enquadrar os ombros sem encostar o tripé à parede. Medir o espaço com uma fita métrica antes de comprar poupa dinheiro e frustração.

Convém também lembrar que a distância ao retratado muda a conversa. Demasiado perto, a pessoa sente-se observada; demasiado longe, a direção perde intimidade. A focal deve servir o espaço e a relação, não apenas a ficha.

  • Meça o recuo máximo do seu estúdio antes de decidir
  • Teste a focal com um amigo em pé, sentado e de corpo inteiro
  • Considere o fundo: a focal também decide quanto dele aparece

Abrir sempre ao máximo para ter desfocado

Quem investe numa objetiva luminosa sente a tentação de a usar sempre na abertura máxima. O fundo derrete-se, o rosto destaca-se, a fotografia parece logo profissional. O problema aparece na revisão: o nariz está nítido, mas as pestanas e a íris já estão fora do plano de focagem, e o retrato perde aquilo que o torna vivo, o olhar.

Em estúdio, com luz controlada, raramente é preciso abrir ao máximo. Fechar um ou dois pontos costuma dar uma zona nítida mais generosa e, em muitas objetivas, um rendimento ótico claramente melhor, com menos aberrações nas margens do desfocado.

Costumo trabalhar numa abertura intermédia e deixar o fundo ser tratado pela distância entre o retratado e a parede, não só pela abertura. A pessoa afasta-se um metro do fundo e o efeito consegue-se sem sacrificar a nitidez onde ela importa.

Confiar em fichas técnicas e não em testes reais

As fichas técnicas e os gráficos de resolução têm utilidade, mas não dizem como a objetiva trata uma pele clara sob luz dura, ou como reage a um reflexo num óculo. Já li análises muito elogiosas de objetivas que, na prática, me deram retratos frios e clínicos, e já descobri objetivas modestas que tratam a pele com uma suavidade difícil de explicar.

O ideal é alugar ou pedir emprestada a objetiva e fotografar duas ou três pessoas diferentes, com tons de pele e idades distintos, sob a luz que costuma usar. Depois, olhar para os ficheiros sem pressa, com zoom a cem por cento nos olhos e a um tamanho de ecrã normal para o rosto inteiro.

É este exercício, mais do que qualquer tabela, que me diz se a objetiva serve o meu modo de trabalhar. Demora uma tarde e evita uma compra que depois fica numa gaveta.

  • Fotografe pessoas diferentes, não apenas um modelo fácil
  • Compare os ficheiros com a mesma luz e a mesma distância
  • Veja o rosto inteiro e também o pormenor dos olhos

Comprar várias objetivas em vez de aprender uma

Há uma fase em que cada nova objetiva promete resolver o que a anterior não resolveu. O armário enche-se, as fotografias não melhoram, e o fotógrafo continua a sentir que lhe falta alguma coisa. Quase sempre o que falta é tempo com uma única focal, até conhecer de cor o enquadramento que ela dá a cada distância.

Trabalhei durante meses só com uma objetiva média, e foi nesse período que percebi como a perspetiva muda o rosto: um pouco mais perto alarga o nariz, um pouco mais longe achata os traços. Esse conhecimento não se compra, constrói-se à força de repetir a mesma sessão.

Se tiver de gastar dinheiro, gaste-o na objetiva que já sabe que usa mais e deixe a segunda para quando a primeira lhe estiver a faltar de forma concreta, com um exemplo preciso do que não consegue fazer.

Esquecer que o equipamento serve a conversa com o retratado

Um último engano, menos técnico, mas o mais caro em retratos falhados: escolher o equipamento a pensar apenas na imagem e esquecer a pessoa do outro lado. Uma câmara ruidosa, uma objetiva enorme que parece uma arma apontada, um obturador que dispara com estrondo, tudo isso pesa no ambiente e se vê nos ombros tensos do retratado.

Prefiro equipamento que desapareça durante a sessão. Um corpo discreto, um disparo suave, uma objetiva que não exija tanto recuo que eu tenha de falar de longe. A fotografia de retrato é uma conversa, e o equipamento certo é aquele que não interrompe essa conversa.

No fim de cada sessão, pergunto a mim mesma se a pessoa esteve à vontade. Se sim, o equipamento fez o seu trabalho, mesmo que a ficha técnica não fosse a mais impressionante.

Escolher câmara e objetiva para retrato não é uma corrida às especificações, é uma série de decisões pequenas ligadas ao espaço, à luz e às pessoas que vão sentar-se diante da lente. Convém começar pela ótica, medir o estúdio, testar com gente real, ficar com poucas peças e aprender bem cada uma. Os erros que descrevi foram todos meus, e cada um ensinou-me algo que nenhuma comparação me tinha dito.

Quem escreve

Marta Figueiredo

Autora e fotógrafa

Fotógrafa de retrato em estúdio há mais de uma década, escreve no blogue sobre o que aprende a cada sessão.

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