Antes de dirigir um retrato: lista de verificação para o estúdio
Uma lista de perguntas para percorrer antes de decidir como dirigir quem está diante da lente: o que dizer, o que mostrar e quando calar, para captar expressões genuínas.
5 minutos de leitura
Porque convém decidir antes de ligar a câmara
Quando alguém entra no estúdio, a conversa já começou. O modo como o recebo à porta, a música baixa que deixo a tocar, a cadeira onde o convido a sentar-se: tudo isto orienta o retrato antes de disparar. Por isso gosto de ter uma lista curta, que releio nas semanas em que o outono traz de volta as sessões de encomenda, depois de um verão mais solto.
A direção de um retrato raramente falha por falta de técnica. Falha porque o fotógrafo chega à sessão sem ter decidido o que quer dizer e o que prefere calar. Quem está à frente da lente sente a hesitação e devolve-a em forma de ombros tensos e sorrisos de circunstância.
As perguntas abaixo não são regras. São os pontos por onde passo, pela ordem em que costumam aparecer, antes de decidir como vou conduzir uma sessão.
Quem vai estar à minha frente?
A primeira pergunta é sobre a pessoa, não sobre a pose. Há quem trabalhe diante de câmaras todos os dias e quem não se fotografe há anos. Há quem goste de instruções precisas e quem fique rígido ao ouvir a palavra pose. Tento saber, antes da sessão, para que serve o retrato e como a pessoa se sente em relação a ele.
Uma conversa breve por mensagem ou ao telefone já chega. Pergunto onde a imagem vai ser usada, se há alguma coisa de que a pessoa não goste na sua própria cara, e se prefere que lhe fale muito ou pouco durante o disparo. Estas respostas mudam o ritmo inteiro da sessão.
Se a pessoa chega nervosa, abrando. Se chega confiante, posso pedir mais. O erro mais comum é aplicar a mesma abordagem a toda a gente, porque foi a que resultou da última vez.
- Para que serve o retrato e onde será publicado
- Experiência anterior diante de câmaras
- Preferência por muita ou pouca instrução
O espaço está pronto para a receber?
Antes de qualquer indicação de pose, olho para o estúdio com os olhos de quem entra pela primeira vez. Uma sala fria, com cabos no chão e a luz já montada de forma rígida, diz ao retratado que ele é uma peça do cenário. Prefiro ter o essencial montado e a margem de ajuste visível, para que perceba que a sessão se constrói com ele.
Deixo um sítio para pousar o casaco e a mala, água ao alcance e uma cadeira confortável fora do campo da luz. Parecem pormenores sem importância, mas é nos primeiros dez minutos que se ganha ou se perde a confiança.
A luz, em si, não se explica aqui: tem o seu próprio lugar noutros textos do blogue. O que interessa neste ponto é que o espaço transmita calma e que o fotógrafo não esteja a lutar com o equipamento enquanto fala.
Que instruções vou dar, e em que ordem?
Gosto de começar pelo corpo e só depois chegar ao rosto. Peço primeiro onde assentar os pés, como inclinar levemente o tronco, onde pousar as mãos. Quando o corpo encontra um sítio estável, a expressão deixa de ser um esforço e passa a ser uma consequência.
Prefiro instruções que descrevam uma sensação a instruções que descrevam uma forma. Dizer pensa em alguém que te deixa à vontade resulta melhor do que dizer levanta o queixo dois centímetros. A segunda ainda serve, mas só quando a primeira não chega.
Convém também decidir quantas instruções dar de seguida. Duas ou três de cada vez são suficientes. Quem ouve uma lista longa deixa de ouvir e passa a obedecer, e a obediência raramente produz uma expressão genuína.
- Corpo primeiro, rosto depois
- Sensações antes de medidas
- No máximo duas ou três indicações seguidas
Quando devo parar de falar?
Há um momento, normalmente a meio da sessão, em que a pessoa deixa de fazer de retratada e começa a estar presente. É nesse intervalo, muitas vezes logo a seguir a uma risada ou a um silêncio, que costumam surgir as melhores imagens. Saber reconhecê-lo é metade do ofício.
Aprendi a baixar a câmara por instantes, a perguntar se quer uma pausa, a deixar passar um minuto sem disparar. Parece contraproducente, mas a tensão acumulada desfaz-se e o rosto volta a ser dela.
Também decido de antemão o que farei quando uma pose não funciona. Em vez de insistir, mudo de assunto, ajusto uma luz ou peço que a pessoa se levante e sacuda os braços. Insistir na mesma instrução só afunda o ambiente.
O que verifico no fim da sessão?
Antes de a pessoa sair, mostro-lhe uma ou duas imagens no ecrã. Não é para pedir aprovação, é para lhe dar uma referência do que está a acontecer. Quem se vê bem relaxa e quem se vê mal tem ainda oportunidade de dizer porquê, enquanto há tempo de repetir.
Registo também, para mim, o que funcionou e o que não funcionou: que instruções abriram o rosto, em que ponto a sessão perdeu ritmo, que pergunta fez a pessoa rir. Estas notas valem mais do que qualquer manual para a sessão seguinte.
Por fim, combino com a pessoa quando e como receberá as imagens, para que saia do estúdio a saber o que esperar. Uma sessão bem conduzida termina com clareza, não com dúvidas.
- Mostrar uma ou duas imagens no ecrã
- Anotar o que resultou e o que não resultou
- Combinar prazo e forma de entrega
Esta lista não torna a direção automática, e ainda bem. Serve para que, quando a sessão começar, as decisões de fundo já estejam tomadas e a atenção possa ficar toda na pessoa. Quase sempre, um retrato com expressão verdadeira resulta de menos instruções, dadas com calma, e de um fotógrafo que sabe esperar. Experimente passar por estas perguntas na próxima sessão e veja o que muda.
Marta Figueiredo
Autora e fotógrafaFotógrafa de retrato em estúdio há mais de uma década, escreve no blogue sobre o que aprende a cada sessão.
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