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A fotografia da Inês e a edição que quase a apagou

Uma sessão de retrato de fim de verão, uma cliente insegura com a própria imagem e o que a edição de cor e de pele lhe devolveu, passo a passo.

Marta Figueiredo

5 minutos de leitura

A fotografia da Inês e a edição que quase a apagou

A Inês chegou com a lista do que não gostava

A Inês marcou a sessão para um retrato profissional, destinado a um perfil de trabalho. Chegou ao estúdio com uma lista curta, dita quase a pedir desculpa: não gostava do nariz, achava a pele manchada e pedia que, por favor, ninguém a fizesse parecer outra pessoa. Anotei tudo, mas guardei a lista para a fase seguinte. Durante a sessão, conversámos sobre o trabalho dela, sobre o calor destas semanas e sobre nada em particular, até os ombros descerem e o sorriso deixar de ser de circunstância.

No fim, tinha cerca de cento e vinte fotografias. Sei, por experiência, que a sessão só está meio feita nesse momento. O resto acontece diante do ecrã, em silêncio, e é aí que se decide se o retrato conta a verdade ou apenas agrada. Neste texto conto o caminho que fizemos com a Inês, da seleção ao ajuste final de cor, porque o caso mostra bem o que penso sobre este trabalho.

Escolher antes de retocar

A primeira decisão foi a seleção, e fi-la com a Inês ao lado. Reduzimos as cento e vinte imagens a doze, apenas olhando para o olhar e para a expressão, sem ampliar nada. Ela escolheu duas que, segundo disse, pareciam finalmente dela. Eu escolhi outras duas. Só uma coincidiu. Aprendi a não ver isto como conflito: a minha escolha privilegia a luz e a composição, a dela privilegia o reconhecimento.

Ficámos com três candidatas e foi com elas que trabalhei. Selecionar cedo poupa horas de edição inútil em fotografias que nunca serão usadas, e obriga a perguntar o que se quer realmente mostrar. Uma boa seleção resolve metade do que, mais tarde, se tenta corrigir com ferramentas.

  • Reduzir primeiro pelo olhar e pela expressão
  • Mostrar ao retratado antes de editar
  • Trabalhar poucas imagens, mas bem

A pele: corrigir sem apagar

Quanto às manchas de que a Inês falava, vi-as de facto, sobretudo nas maçãs do rosto, onde a luz lateral as acentuava. Não as removi. Suavizei o contraste local com um ajuste ligeiro e deixei a textura intacta, porque uma pele sem textura denuncia de imediato o retoque e tira credibilidade ao retrato. O objetivo era que alguém que a conhecesse dissesse que ela estava bem, não que estava diferente.

Trabalhei em camadas separadas, para poder recuar em qualquer passo, e fui comparando com a imagem original a intervalos regulares. Ao fim de meia hora, afastava-me do monitor e voltava a olhar. Se o olho notava a intervenção, desfazia metade. Este hábito simples evita a deriva em que cada pequeno ajuste parece razoável e o conjunto deixa de ser a pessoa.

A cor, que muda tudo sem se dar por isso

Reservei a cor para o fim, de propósito. Com a pele já tratada, ajustei o balanço de brancos a partir de um cartão cinzento fotografado no início da sessão, o que me deu um ponto de partida honesto. Os tons de pele da Inês tendiam para o amarelo sob o flash, e puxei-os com cuidado para um tom mais próximo do que eu tinha visto na sala, sem esfriar a imagem.

Depois, afinei a saturação dos vermelhos e dos laranjas, que são os que mais denunciam um exagero. A camisa azul-escura que ela vestia pedia um fundo neutro, e acertei-o ligeiramente para que o rosto fosse o ponto mais claro do enquadramento. São decisões pequenas, mas é a soma delas que faz um retrato parecer natural em vez de produzido.

  • Acertar o balanço de brancos com a referência cinzenta
  • Controlar a saturação de vermelhos e laranjas
  • Deixar o rosto como ponto mais claro

Mostrar, ouvir e ajustar

Enviei as três versões à Inês e pedi-lhe que não respondesse logo. Deixei passar um dia, porque a primeira reação a uma imagem de si própria costuma ser severa e depressa se acalma. Quando respondeu, escolheu a terceira e pediu apenas que o tom do cabelo ficasse um pouco mais quente. Fi-lo em poucos minutos.

Este ciclo de mostrar, ouvir e ajustar parece lento, mas evita o erro mais comum da edição: decidir sozinho o que é um defeito. O que eu considero uma imperfeição pode ser, para quem está no retrato, exatamente aquilo que o torna reconhecível. A lista que a Inês trouxe no início, afinal, quase toda ficou por tocar.

O que ficou desta sessão

Passados uns dias, a Inês escreveu-me a dizer que tinha usado o retrato no perfil e que um colega lhe perguntara se tinha feito algo de diferente. Respondeu que não. Considero isso o melhor resultado possível: uma imagem que passa despercebida como retoque e que se lê apenas como a pessoa num bom dia.

Fica-me desta sessão uma convicção que repito a mim própria em cada edição: o trabalho de revelação serve quem está diante da lente, não a minha vaidade técnica. Trabalhar com contenção, com referências claras e com o retratado por perto dá mais retratos que se usam do que retratos que impressionam apenas quem os fez.

Editar um retrato é uma conversa que continua depois de a sessão acabar. A Inês trouxe uma lista de receios e levou uma imagem em que se reconhecia, com a pele tratada mas viva e a cor fiel ao que se via na sala. Com seleção cuidada, ajustes discretos e tempo para ouvir, a edição deixa de ser correção e passa a ser cuidado com a pessoa fotografada.

Quem escreve

Marta Figueiredo

Autora e fotógrafa

Fotógrafa de retrato em estúdio há mais de uma década, escreve no blogue sobre o que aprende a cada sessão.

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